Apesar de parecer que “a tecnologia” seja um fato moderno, introduzido portanto, muito recentemente na história da humanidade, isso não é bem assim. Essa impressão deve-se àquilo que, no senso comum, se entende por tecnologia, que na maioria das vezes confunde-se com a técnica.
O termo tecnologia origina-se do grego Téchne (técnica) + Logos (discurso) e significa o discurso sobre a técnica. Na tradição grega, téchne é a arte, a ciência aplicada, a habilidade, o ofício. Na téchne, a inteligência humana se manifesta. Na téchne, observa-se a evolução e o caráter de impermanência da renovação. O humano, por meio de sua inteligência e habilidade, retira da natureza certos elementos, transforma-os por meio de processos por ele inventados e produz os seus artefatos.
Quando falamos de um novo equipamento com capacidade superior e mais evoluído em relação aos seus antecessores ou quando discorremos sobre o salto qualitativo do analógico para o digital, estamos falando de téchne. Em ambos os casos, com o sentido original dado por Platão, para quem a téchne estava irremediavelmente ligada à habilidade e competência profissional. Sob esta perspectiva, ao falarmos em tecnologia digital, por exemplo, estaremos nos referindo aos discursos sobre o digital e não ao digital propriamente dito. E, sobre os discursos, eles podem ter os mais variados tons: político, ideológico, utópico etc.
Seguindo esta lógica platônica, pode-se deduzir que a tecnologia, no sentido ligado à sua etimologia grega, seja um fato histórico recente, pois ela deve ter passado a existir a partir do momento que o homem cria princípios e constrói outras competências, isto é, quando ele passa a pensar sobre si, a codificar e simbolizar suas experiências no mundo e constituir um corpus de saber. Já a técnica, a téchne, como arte do fazer, como ofício de artesão, ela co-existe com o humano há muito mais tempo. É incrível pensar, mas um tacape já foi um produto de alta tecnicidade, assim como o fogo domesticado, a lança, o arco e flecha, a roda, a catapulta e tudo aquilo que o humano tem produzido em sua trajetória sobre a face da Terra nos últimos 800 mil anos.