Albert Einstein nos ensinou que um caminho certo e direto para a insanidade é procurar fazer as coisas da mesma forma e esperar obter delas resultados diferentes. Este pensamento nos induz a reflexão do porquê executivos financeiros bem-sucedidos, alguns mesmo tidos como brilhantes, puderam de forma continua, transpor conscientemente os controles corporativos, expondo empresas de diversos segmentos aos resultados catastróficos, que presenciamos perplexos.
Qual teria sido a contribuição da tecnologia (positiva ou negativa?), em particular nos sistemas de governança e gestão de riscos, que suportaram ou vieram a fundamentar estas decisões? Estima-se que um determinado grupo de companhias brasileiras, previamente auditadas e teoricamente em dia com as regulamentações em vigor, irá anunciar ao mercado prejuízos de cerca de U$ 20 bilhões.
As perdas são pelo inusitado envolvimento em especulações alavancadas com derivativos e demais instrumentos financeiros complexos. Apenas em uma delas, que até o momento não teve êxito na renegociação com credores de cerca de 30% deste valor, enfrentou há poucos dias forte ceticismo e resistência inédita.
Gestão de riscos
Surpreende perceber que estas empresas construíram por anos imagens sólidas e conservadoras. Penso que a grande maioria dos seus acionistas jamais teve notícia de que este tipo de operação poderia afetar diretamente suas posições de investimentos. Num dos primeiros casos públicos, contatou-se, porém, que na verdade os aplicativos de riscos teriam projetado que as perdas máximas estariam contidas entre 8 e 10% do que realmente foi destruído do patrimônio.
Teriam os algoritmos sido concebidos tão erradamente ou estes usuários financeiros sofisticados tinham plena consciência de estarem ultrapassando o que seus sinalizadores digitais alertavam como máximo aceitável? Será muito educativo para todo o ambiente de negócios podermos efetuar análises com as técnicas de forense computacional, mergulhando nestes arquivos e reconstruindo as sessões de comunicação na rede, mapeando em detalhes estas respectivas seqüências e conseqüentes autorizações.
Seria já possível associar a este comportamento o termo fraude? Ou teria sido apenas um imenso erro coletivo de avaliação dos mercados? A linha tênue que separa a má-conduta, excesso de poder ou simples ineficiência teria sido ultrapassada no que chamamos em segurança de “ponto-de-não-retorno”?
Não acreditávamos ter resolvido estas questões de atribuição de responsabilidades e limites após todos os investimentos feitos sob o guarda-chuva de argumentos envolvendo a Lei Sarbanes-Oxley (SOX)? Não foi enfatizado por vários anos que a segregação de funções e responsabilidades era prioritária e imprescindível no ambiente globalizado e integrado online 24 horas aos sete dias da semana?
Os auditores contábeis não teriam percebido que estes sistemas eram tão violáveis e tinham controles frágeis passíveis de aceitar níveis excessivos de riscos sem disparar alarmes relevantes para os níveis superiores, além do próprio Conselho? Ou estes simplesmente os receberam, mas não entenderam a complexidade destas operações confiando apenas nos seus líderes financeiros?
A proteção da marca, transparência e valorização da imagem são fatores que motivaram muitos dos investimentos em tecnologias de governança e gestão de riscos, que estão agora sob o fogo cerrado pela dura realidade dos fatos. Aplicativos envolvendo alternativas e cenários sofisticados processando modelos matemáticos tido como computacionalmente próximos da perfeição passam por forte contestação e descrédito de toda comunidade de negócios.
Como iremos responder as necessidades das novas regulamentações que estão por vir? Na última reunião do G-20 em Washington (EUA), a Comunidade Européia propôs um novo modelo para a integração mundial dos mercados e capacidades para atribuição granular de responsabilidades aos diversos agentes. Porém, americanos ainda resistem a ceder da sua soberania consumada pelo acordo de Bretton Woods, ainda proveniente do pós-guerra de 1944.
Allan Greespan, ex-presidente do Federal Reserve, nos pede desculpas por ter tornado o sistema de auto-regulamentação assim tão permissível a estas condutas. Ele confessou-se chocado e parcialmente errado, por não ter previsto esta variável como possível.
Uma das grandes perguntas no ar é o que a tecnologia poderia ter feito para bloquear ou limitar a consumação da crise? Teria sido possível perceber e interromper tais níveis de alavancagem por meio de controles mais eficientes nos sistemas? Ou associar movimentos iniciais que iriam gerar a ganância excessiva?
O último 15 de setembro será referenciado como o fim de uma era. Creio que incertezas e certo vazio irão durar por algum tempo até que os governantes nos indiquem um novo paradigma a seguir. Uma nova geografia e ordem econômica emergirão e haverá grandes oportunidades para toda uma nova geração de sistemas e aplicações. Teremos, porém, de buscar modelos que capturem os aspectos obscuros da mente humana e não apenas seguir a lógicas pragmáticas.
Controle das fraudes
Teremos de ser capazes a não apenas de reagir, mas sim prever a formação de situações associadas a fraudes, desvios ou erros intencionais, tão cedo e rápido quanto possível, reduzindo ao mínimo seus impactos e conseqüências às empresas, governos e a sociedade como um todo.
Modelos analíticos e reativos perderão gradualmente seu significado. Tecnicamente já é possível construir arquiteturas que analisem continuamente e de forma passiva todo trafego das redes, aplicações e interações dos usuários. Alertas adaptativos serão parametrizados e em contínuo aprendizado, para as sutis alterações de comportamentos dos perfis, acionando gatilhos para validações imediatas por outras dimensões e equipes.
Sinalizadores em interfaces web irão apresentar aos empresários, de forma simples, clara e objetiva, os vários cenários e impactos das decisões em curso, permitindo um melhor processo de tomada de decisão ou associação a atividades suspeitas.
Teremos de gerar aplicações próximas aos modelos cognitivos do aprendizado, capazes de responder e confortar entre os milhões de prejudicados, consciências como a de Greenspan. O materialismo excessivo desprovido de agregação de valor chegou ao seu fim, explodindo a credibilidade e independência de alguns ao agir contra suas próprias empresas visando o lucro pessoal e imediato.
Conquistamos muito, porém, seguindo o caminho atual não iremos ocupar o respeito e espaço necessário junto às lideranças empresariais. Einstein já sabia disso.