Uma visita a Global BC, segunda maior emissora broadcasting do Canadá, deixou uma certeza. A televisão do futuro existe. O que parecia aos olhos dos céticos um devaneio já e uma realidade, como mostra o projeto dos canadenses, baseado numa plataforma de controle central. Esse modelo permite oferecer a todos as afiliadas (14) os mesmos recursos tecnológicos presentes na cabeça de rede.
A mudança no paradigma não foi motivada por conforto, mas por necessidade. O Canadá é um país de dimensões continentais e, como no Brasil, o conceito de rede era fictício. Não havia controle dos comerciais, da exibição de clipes, padrão gráfico e editorial. Os custos com a manutenção de exibidores, editores, e toda sorte de profissionais que atuavam nas emissoras era alto. O resultado sempre ficava aquém do desejado.
Com o advento da televisão em alta definição, o modelo acima descrito se tornou inviável. De acordo com os diretores da TV canadense, é impossível amortizar a compra de equipamentos de alta qualidade em praças, cujo faturamento sempre foi pequeno. Além disso, os profissionais capacitados a operaram esses novos sistemas, até mesmo pelas suas qualificações, elevam ainda mais os custos ratificando assim a inviabilidade desse antigo formato.
Foi diante desse impasse, que surgiu a oportunidade de reinventar a própria TV, trazendo mais controle, precisão e qualidade. Foi desenvolvido em conjunto com a Orade – empresa israelense dedicada a servidores de alta performance- e a Harris – responsável entre outros equipamentos pelos aparelhos emissores e receptores de áudio e vídeo, um controle central com vias fibradas de ida e volta entre todas as afiliadas.
A tecnologia
As fibras responsáveis pelo tráfego de dados entre as emissoras são de apenas de 8 MB. O sistema operacional que sustenta essa operação é baseado em Linux. O código aberto e os programas que auxiliam a operação desenvolvidos pela Orade permitem que usuários do sistema customizem e criem rotinas de trabalho sem a necessidade permanente de suporte ou interferência do fornecedor, no caso a empresa israelense.
Além disso, os servidores que gerenciam a integração entre diversas plataformas trabalham com todos os formatos de vídeo consagrados. Isso permite a manutenção da pluralidade de tecnologias e respeita a realidade de cada região do país.
Esse controle, feito pelos melhores profissionais do mercado, envolve a operação remota, que em alguns casos atinge cobertura de oito mil quilômetros, da iluminação do set, sonoplastia, controle de câmeras através do uso de um joystick, exibição e criação de cenários virtuais, videografismos e geração de caracteres.
Na mesma rede também são compartilhados editores de texto tipo AP - ENPS, telepronter, operações comerciais, VoIP, videoconferência, arquivos, entre outros recursos. As fibras responsáveis pelo tráfego de dados entre as emissoras são de apenas 8 MB.
A operação de todo grupo e feita pela central de forma extremamente precisa e segura. No Canadá isso não e um preciosismo, mas uma necessidade, uma vez que existem cinco fusos diferentes no país. A robustez do sistema permite a exibição simultânea nas praças mesmo que com conteúdos independentes, utilizando toda a tecnologia disponível.
Atualmente na Global TV, 100% do conteúdo gerado pela cabeça de rede e afiliadas está disponível para todos os integrantes do processo. A captação das imagens, toda ela feita em HD, com diversos tipos de câmeras - entre elas Sony e Panasonic – e inserida no sistema e convertida para SD (4x3 ou 16X9). Quando for do interesse estratégico da emissora, com apenas um clique de mouse a exibição passará a ser em HD, uma vez que o bruto e a edição já acontecem nesse formato.
Diversos formatos
A convergência também foi alvo de estudos. O mesmo servidor que gera os clipes, sejam eles comerciais ou de exibição, permite a saída desse mesmo conteúdo em diversos formatos. Na Global TV eles já usam essa ferramenta para a publicação de vídeos na internet e em dispositivos moveis. Segundo os diretores, em breve vão atuar em Media Indoor, IPTV e no setor de interatividade.
A exibição controlada pela central é extremamente precisa e segura. No Canadá isso não e um luxo, mas uma necessidade, uma vez que existem cinco fusos diferentes naquele país. A robustez do sistema permite inclusive a exibição simultânea nas diversas praças mesmo que com conteúdos independentes.
Do momento em que foi concebido até sua entrada em operação em todas as emissoras não se passaram sequer 18 meses e sem prejuízo do funcionamento das emissoras. O investimento total, incluindo nessa conta maquinário, instalação e treinamento foi em torno de U$ 30 milhões.
O resultado para a emissora veio rapidamente. A audiência nas praças menores dobrou assim como o faturamento. O resultado dessa conta é que a amortização total do investimento está prevista para dois anos. Nessa conta não entra a economia com a redução de funcionários. Atualmente, toda a rede possui inacreditáveis 400 empregados.
Melhor qualidade
Existem diversos fatores que explicam a melhora na qualidade do material produzido pela rede. Entre eles podemos destacar:
A concentração de todas as laudas, pautas e reuniões de caixa no sistema de edição central que criou a base para a uniformidade da linguagem da Global TV.
A adoção de cenários virtuais, todos projetados e controlados pela central produziu uma unidade visual e um padrão de qualidade na imagem, que sempre era perseguida, mas jamais alcançada
A estabilidade e flexibilidade do sistema liberou os jornalistas para a sua atividade fim. Antes a questão técnica envolvendo transmissões por satélite em canais diferentes, envio de laudas e aprovação de tempo e texto geravam um forte desgaste que com a centralização praticamente deixou de existir.
O fato de o sistema ser multiplataforma permitiu um aumento no leque de fornecedores de equipamentos, visto que a compatibilidade entre diferentes marcas é completa. Vale ressaltar que os equipamentos presentes nas emissoras são os mesmos encontrados no Brasil. O que muda é o conceito de fluxo de trabalho.
"Temos um contingente muito pequeno. Pagamos bem, temos ótimos profissionais e eles estão muito estimulados", explica Brett Manlove, vice-presidente da Global TV.
Ao ser questionado se houve resistência entre os funcionários ele responde: "qualquer tecnologia nova passa por isso. Mas depois que o conceito de rede foi absorvido e o fluxo de trabalho começou a trazer uma maior qualidade ao produto, as resistências sumiram. Hoje digo com orgulho que estamos todos no mesmo barco rumo ao futuro", comemora.
Manlove acrescenta ainda que “estamos num momento de transição. Mas o interessante e que os jovens profissionais ainda sem os vícios antigos estão se adaptando muito bem e criando novas formas de trabalho. Um mundo novo de novos conceitos esta surgindo aqui na Global."