O bluetooth ganhou popularidade quase sempre associado aos charmosos headsets – aqueles fones/microfones sem fio – para telefones celulares que deixam seus usuários com ar de filme de ficção científica. Deixando os headsets de lado, quem já se perguntou o que realmente representa essa tecnologia, de onde ela surgiu e que aplicações pode ter? Bluetooth é um padrão de comunicação por rádio de baixo consumo elétrico e curto ou curtíssimo alcance. Os dispositivos podem ser classificados, de acordo com a potência e alcance, em três níveis: classe 1 (100 mW, com alcance de até 100 m), classe 2 (2,5 mW e alcance até 10 m) e classe 3, (1 mW e alcance de 1 m, uma variante muito rara).
A maioria dos equipamentos, no entanto, se enquadra na classe 2, ideal para as chamadas Personal Area Networks: redes sem fio que integram apenas os aparelhos próximos ao usuário. É o caso da comunicação entre o celular e o headset ou viva-voz do carro, um teclado ou mouse sem fio e o computador, dois PDAs que precisam trocar informações, e por aí vai. Com isso, já dá para ter uma idéia das possibilidades do padrão. Quem tem um PDA e um celular equipados com a tecnologia, por exemplo, pode conectá-los via bluetooth e usar o telefone como modem para navegar na Internet pelo micro de mão, sem que o primeiro sequer precise sair do bolso. Bem diferente do que era possível com a conexão por infravermelho, que requer o alinhamento dos aparelhos e linha de visão permanente entre eles.
O mesmo vale para a troca de dados entre gadgets com “dente azul” (tradução de bluetooth para o português) e um computador igualmente equipado. Pode ser um desses notebooks com o padrão integrado, cada vez mais comuns, ou um desktop munido de um adaptador USB-Bluetooth, acessório parecido com um memory key que pode ser encontrado em lojas de informática por menos de R$ 100. Plugue um desses no seu micro e, com os softwares adequados, você será capaz de sincronizar informações do PDA ou celular sem colocar as mãos neles. Só preste atenção à sua versão do Windows: acessórios bluetooth só costumam ser reconhecidos a partir do XP com Service Pack 2.
Cuidado também com os kits de teclado e mouse: alguns deles vêm com um adaptador que só funciona com os periféricos do conjunto, não servindo para conexão com outros aparelhos. Nessa mesma categoria, merece destaque o IMPhone, da coreana Enustech. Mais que um adaptador, ele transforma alguns celulares com bluetooth – por enquanto apenas alguns modelos são compatíveis – em um telefone IP, capaz de fazer ligações pelo Skype e serviços semelhantes, com a vantagem de você controlar tudo pelo celular.
Do carrinho ao detector de radar
Como quase toda tecnologia, o padrão também tem sua cota de uso em dispositivos de utilidade duvidosa, inusitadas ou até condenáveis. Na primeira classe, enquadram-se o carrinho de controle remoto e a câmera robô apresentados pela Sony Ericsson nos últimos anos, provavelmente mais para provar que aquilo era possível e ganhar espaço na mídia do que para realmente vender produtos. É o caso também do software que, em um PC com adaptador, permite usar um celular como controle remoto do micro, em especial para pilotar players de áudio e vídeo. Pode ser baixado em http://developer.sonyericsson.com/site/global/docstools/misc/p_misc.jsp. Funciona com os modelos K600/700/750, S700/S710, V800, W550/600/800 e Z520/800, da Sony Ericsson.
Mas o bluetooth não serve só para aumentar o conforto de micreiros sedentários. Se você decidir descer uma montanha esquiando a mais de 190 km/h, a tecnologia também pode ajudá-lo – principalmente se você for cego. É o que pretende fazer o esquiador Kevin “Bala de Canhão” Alterton, ex-soldado que ficou cego em 1998, ao defender uma mulher de um assalto. Em março, o corajoso atleta tentará o feito, guiado por outro esquiador via headset bluetooth. Superar limites de velocidade é também a motivação de quem compra o “Calibre”, um detector de radar para quem gosta de pisar fundo mas não quer ser pego pela polícia. O sistema é composto por dois receptores de radar posicionados na grade dianteira e no párachoque traseiro do automóvel e um controle-remoto que pode ser guardado discretamente no bolso.
Já no campo educacional, a empresa GTCO Calcomp Peripherals ganhou projeção graças a uma espécie de quadro-negro bluetooth que permite que professores e alunos de qualquer lugar da sala escrevam em uma prancheta digitalizadora semelhante a um tablet e tenham seus rabiscos reproduzidos no quadro à frente da turma. É o fim das humilhantes idas até o quadro para resolver um exercício na frente dos coleguinhas. Nada supera, porém, o Cellular Squirrel, um esquilo de pelúcia criado por um pesquisador do MIT (Massachussets Institute of Technology). O simpático roedor robótico usa uma conexão bluetooth para trocar dados com um celular e um PC, avalia a urgência de um telefonema e decide se e como alerta o dono silenciosamente, por meio de gestos (Saiba mais no site do MIT).
Spam via bluetooth
Na categoria das aplicações questionáveis, chamam a atenção o Bluejacking e o Bluesnarfing. O primeiro, apesar do nome que sugere um seqüestro (hijacking, em inglês), é inofensivo, mas pode ser irritante. Consiste em enviar mensagens, inclusive spam, para os eletrônicos alheios, via bluetooth. A técnica surgiu inocentemente, quando um usuário cujo apelido era “ajack” (daí o Bluejacking) identificou nas proximidades um celular Nokia com bluetooth ativo e enviou, por diversão, uma mensagem que dizia "Compre Ericsson”. Empresas de marketing levaram o conceito adiante e criaram o Bluecasting, em que um equipamento especial dispara propaganda para todos os aparelhos que passam perto. A prática é classificada como spam e proibida em muitos países.
Paquera e até roubo de dados
Mas o Bluejacking também tem suas utilidades nobres, como as variantes Bluedating e Bluechating – respectivamente, paquera e bate-papo via bluetooth. Aplicativos como o Nokia sensor e o Mobiluck permitem que você cadastre suas informações e o perfil de quem você procura em um aparelho com a tecnologia e passam a buscar ao seu redor pessoas afins que também estejam usando o recurso. Existem até locais específicos nos EUA e na Europa – geralmente em parques, lojas, bares e restaurantes – para essas buscas, batizados de Blueplaces.
Já o Bluesnarfing – este sim, perigoso – consiste em surrupiar informações dos aparelhos alheios. Basta que o seu celular (só os modelos mais antigos são vulneráveis) esteja com o bluetooth ligado e em modo “discoverable” para que uma pessoa mal-intencionada nas proximidades possa invadi-lo e roubar o conteúdo de sua agenda e catálogo de endereços, por exemplo. O pior é que a expressão “nas proximidades” não é exatamente verdadeira. Embora o alcance típico de um celular bluetooth seja de 10 m e de um laptop chegue a 100 m, isso não é obstáculo para a criatividade humana.
Uma equipe da Flexilis, grupo de pesquisa em aplicações sem fio, construiu um “rifle bluetooth” capaz de captar sinais de dispositivos localizados a mais de 1 km. Apesar da aparência ameaçadora, o equipamento nada mais é do que um transmissor/receptor de alta potência acoplado a uma antena direcional que deve ser apontada para o alvo. Um micro portátil recebe os sinais da antena e mostra as identificações dos aparelhos bluetooth, abrindo caminho para ações de Bluejacking e Bluesnarfing. Durante os testes do equipamento em Los Angeles, o grupo conseguiu encontrar dezenas de aparelhos bluetooth em minutos, simplesmente apontando a “arma” para prédios comerciais ao redor. A brincadeira recebeu o nome de bluetooth Sniping, e as instruções para construção de um rifle como o deles estão no site www.tomsnetworking.com/Sections-print-article106.php