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Entrevista: Gustavo Viberti
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Fabiana Monte - 11/05/2005 - 18:17

A Internet brasileira tem alguns ícones e, sem dúvida, o Cadê? é um dos mais importantes. Fazendo uma analogia, o Cadê? é o Google de seu tempo. O site de busca, lançado nos idos de 95/96 por Gustavo Viberti e seu amigo-sócio Fábio Oliveira, inovou em diversos aspectos. Foi o primeiro catálogo de busca nacional e inaugurou o mercado de publicidade online. Já naquela época, um anúncio no Cadê? custava R$ 50 mil. Tempos depois, em 1999, Viberti e Oliveira venderam o Cadê? para a StarMedia e hoje o catálogo de buscas pertence ao Yahoo!

Viberti fez história com o Cadê? e desde que vendeu o catálogo de busca tem atuado como um “guru” para novos projetos ligados à Internet. Chegou a criar uma empresa de investimento em negócios pontocom, a CadePar, experiência que durou cerca de um ano, até 2001. “A experiência foi boa, conheci muita gente interessante, muitos projetos interessantes, mas sabia que estava investidor, não era investidor”.

Nesta entrevista ao WNews, Viberti analisa os dez anos da Internet no Brasil, fala de tendências, realizações e muito mais. Confira.

WNews - Depois de vender o Cadê?, você fundou uma empresa de investimentos em pontocoms, a CadePar. Como foi essa experiência?

Gustavo Viberti - Fiquei na CadePar por mais ou menos um ano. Foi interessante para conhecer o outro lado, o lado investidor. Ficar do outro lado da mesa foi excelente, mas sou mais empreendedor. A experiência foi boa, conheci muita gente interessante, muitos projetos interessantes, mas sabia que estava investidor.

Acabei investindo em algumas empresas e participando da gestão em cargos de diretoria e de conselho administrativo. Não assumi cargos executivos, preferi atuar sempre na retaguarda. Todas as empresas eram ligadas à Internet, algumas de hosting, outras de conteúdo. Atualmente estou participando da gestão de uma empresa de conteúdo.

WNews - E o que você está fazendo hoje? É comum a gente ver quem começou a Internet no Brasil hoje atuando em cargos de gestão de empresas, como “gurus”. É o caminho natural?

Gustavo Viberti - Sempre estou envolvido em algum projeto, mas não mais como antes. Agora quero dedicar tempo à família. Quem passou pela experiência da chegada da Internet viveu tudo aquilo muito intensamente. Foram anos muito intensos. Em cinco anos, via pouco a minha família. Muita coisa aconteceu, meu filho nasceu e depois de tanto tempo aprendi a pensar em coisas mais importantes, a pensar na minha família. Acho que ocupar uma cadeira de tecnologia é o caminho natural, porque você participa do planejamento, da gestão, mas não do dia-a-dia.

WNews – E que tipo de serviços têm chance de sucesso na Web hoje? O que sua experiência na CadePar lhe diz?

Gustavo Viberti - Ah, sempre surgem coisas interessantes, mais ou menos interessantes. E há coisas super interessantes que têm mercado restrito.

Nos últimos anos, a gente vê serviços se integrando à Internet. Cinema é um bom exemplo. Há algum tempo você não imaginava comprar ingresso para cinema pela Web. Hoje isso é natural, já se agregou à realidade, você nem percebe e já faz parte da sua realidade. Acho que esses são os serviços que terão sucesso, este é o caminho.

WNews - E qual é a próxima onda da Web?

Gustavo Viberti - Vem muita coisa por aí. Esses dez anos são de maturidade. Há uma década, mal se ouvia falar de Internet. Ainda não dá pra dizer que a Web tem grande penetração no Brasil. Apesar de grande público, a penetração ainda é pequena. Acho que para o Brasil, a próxima onda é incluir mais gente usando a Internet. Tudo o que acontece lá fora acontece aqui, só que para nós, o que importa ainda é democratizar o uso da Web, porque poucas pessoas têm acesso à Internet.

Antigamente o computador era considerado supérfulo, hoje não é mais assim. No passado, os pais matriculavam seus filhos em cursos de datilografia, porque era essencial para que eles entrassem no mercado de trabalho. Hoje isso morreu. Computador não é mais luxo, é essencial e é preciso incluir mais pessoas nessa realidade. A solução para isso no curto prazo é o financiamento de micros, telecentros, iniciativas como as que já existem hoje. O CDI, do qual faço parte, tem várias iniciativas de inclusão digital.

WNews – Considerando-se as devidas diferenças, pode-se dizer que o Google é o Cadê? de hoje?

Gustavo Viberti - O Cadê? e o Google são equivalentes porque se dispõem à mesma coisa. O tamanho, obviamente, é diferente. O que ambos têm de parecido – e o Yahoo! também tinha – era tornar a experiência do usuário simples. Por mais complexo que seja o mecanismo de busca, a interface para o usuário é simples, ele não precisa saber como se dá o processo de busca.

Sempre acreditei que mecanismos de busca seriam a porta de entrada da Internet. Quanto mais a Rede crescer, mais os mecanismos de busca serão necessários. O Google tem grande mérito, porque conseguiu desbancar o Yahoo!, algo que ninguém pensava que fosse possível.

O bacana do negócio da Internet é justamente essa dinâmica. O Google mostrou isso em relação ao Yahoo! e daqui a alguns anos poderá surgir uma outra surpresa inovadora. Na Web, um negócio novo sempre pode surpreender, este é o aspecto mais bacana da Internet e é o que motiva a superação. São essas novidades que fazem as pessoas adotarem a Web. Se paramos para pensar, a Internet no Brasil é muito nova, dez anos é muito pouco. Parece que tem mais tempo, mas a Web só tem dez anos aqui.

WNews - Você se arrepende de ter vendido o Cadê?

Gustavo Viberti - Já me perguntei isso umas mil vezes. Não foi fácil e nem rápido. Voltando no tempo, era uma época que muita gente estava chegando ao Brasil com muito dinheiro. O Cadê? estava bem, mas a gente achava que a sobrevivência da empresa no longo prazo podia ser garantida pela venda do Cadê?.

WNews - O que você acha que teria acontecido com o Cadê? se você tivesse continuado à frente da empresa?

Gustavo Viberti - Não sei o que teria acontecido, mas com certeza o serviço não teria mudado tanto. O mais bacana é que ainda hoje, tanto tempo depois de ter sido lançado, o Cadê? ainda é o segundo mecanismo de busca mais usado no Brasil. O Google vem em primeiro e o Cadê? é o segundo. Os atributos da marca, o carinho das pessoas continua. Isso é muito bacana, dá orgulho.

WNews - O modelo de publicidade online deu certo?

Gustavo Viberti - Ah, com certeza. O Google, por exemplo, tem uma receita enorme com publicidade. Eles acabaram de divulgar resultados que mostram isso. Na época do Cadê?, a publicidade já era uma receita importante. E nós criamos o mercado de publicidade online, a gente tinha que mostrar pros anunciantes que a publicidade online fazia sentido. Se o site consegue vender publicidade, é a melhor fonte de receita. Mas é difícil vender. Se você consegue conquistar clientes, é a melhor fonte de receita que existe.

O grande mérito do Google foi o sistema de publicidade online. Foi uma grande sacada. Outros mecanismos de busca até tinham sistemas semelhantes, mas não com uma rede tão grande. Hoje continua não sendo fácil vender publicidade online, mas mais sites conseguem ter receita proveniente de publicidade por causa dessas redes. Esse modelo deu chance a pequenos sites também participarem do mercado de publicidade online.

WNews - Há quatro anos, você disse que o Cadê? nasceu de forma despretenciosa. Hoje ainda é possível começar um negócio na Internet de forma despretenciosa?

Gustavo Viberti - O normal seria eu te dizer que não, que é preciso ter um business plan, mas ainda quero acreditar que é possível começar de forma despretenciosa. O padrão, o caminho natural é criar um business plan, mas na Internet há a o fator da imprevisibilidade. Às vezes a idéia é tão boa que vale a pena começar, mesmo sem um business plan.

Tudo leva a acreditar que o business plan é o ideal, porque o empreendedor pensou no que quer fazer, elaborou bastante o negócio, pensou no que vai apresentar para os investidores. Este é o processo normal para qualquer empresa que busque financiamento. Mas, ao mesmo tempo, o bacana é que a Internet dá a oportunidade de testar. Então, acho que também vale começar, ver se funciona e, depois, formatar a apresentação para alguém. Na CadePar, conheci boas iniciativas com business plan, mas que não funcionavam quando colocadas em prática.

WNews - Qual é a maior frustração em relação à Internet nesses dez anos? É a bolha?

Gustavo Viberti - Não tivemos no Brasil a parte boa da bolha. Quem começou em 1995/96, quando a Nasdaq começou a se mostrar, o Brasil ainda estava longe dessa realidade. A Nasdaq atraiu americanos, mas os brasileiros não puderam aproveitar. Em 2000, quando o Brasil poderia aproveitar os benefícios da Nasdaq, a bolha estourou. No Brasil, o estouro da bolha foi mais psicológico do que realidade.

Em termos de aplicação, tem um montão de coisas que foram frustrantes, como o PointCast Push (serviço que transmitia automaticamente notícias para o computador do usuário). As pessoas achavam que aquilo seria o futuro da Internet. Para nós, não parecia uma boa idéia, mas para a imprensa era o caminho natural da Internet. O WAP é outra frustração. As coisas boas são as que passam à prova do tempo.

W News - O que a Internet mudou no dia-a-dia das pessoas?

Para quem tem acesso, muita coisa mudou. E-mail é um bom exemplo. Antes, ninguém pensava em e-mail. Hoje é uma coisa óbvia, você vê senhoras de idade falando que mandam e-mail, coisa e tal. A forma de buscar informação, em si, mudou. Como você buscava informação antes da Internet? Usava enciclopédias, por exemplo. A Internet mudou a forma como a gente se relaciona com a memória.


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